Segunda-feira, 24 de Dezembro de 2007

Carta ao Pai Natal

Senhor Pai Natal

Como diz o meu amigo que mora na torre em frente à minha barraca do bairro de lata onde vivo quero pedir-te que transmitas lá no céu como vou passar o Natal com a minha mãe. Tenho dez anos e nunca tive um brinquedo a não ser daqueles que nós fazemos com arame, carros com rodas e tudo e volante. Desde que cheguei de Cabo Verde que moro aqui nesta casa de madeira sem luz, sem água e só a Lua acende as ruas estreitas, tão estreitas que chego a bater nas casas com os cotovelos.

 Nunca fui à escola e não sei ler nem escrever por isso pedi ao meu amigo menino para fazer uma carta. é tão estranho a caneta dele desliza sinais no papel das coisas que eu digo que é difícil acreditar que as minhas palavras ali estão. Às vezes espreito pela grade da escola que fica ali perto e vou ver os meninos no recreio a brincar quando a minha mãe diz para ir comprar pão no senhor inácio porque o dinheiro eu conheço dez vinte cinquenta as moedas e as notas. Senhor Pai Natal, eu só queria... olha, já disse que não quero brinquedos, não me importo mas diz a Deus para dar um homem à minha mãe; ela queixa-se muito, passa a vida a dizer que a casa precisa é de um homem, principalmente quando o meu irmão de dezoito se pica nos braços e fica para ali parece um morto mas quando acorda começa a partir as coisas que restam. Por isso é que nós não temos prateleiras para pôr as panelas fica tudo no chão a monte.

Há dias deitou abaixo a porta da casa e dormimos toda a noite com os cães da rua a entrar e a sair. eu quase não dormi porque tive de enxotar os cães que iam lamber as pernas ao meu irmão e à minha mãe. foi engraçado. Ah, sabes, neste bairro que não é bairro não vem a camioneta buscar o lixo o carro que vem é a carroça dos cães para os levar não fazem mal a ninguém mas eles dizem que são vadios os cães têm dono mas eles não querem saber e dizem que são nossos amigos, os cães. Vem também um senhor padre dizer para irmos à missa rezar mas a minha mãe e eu não temos tempo é preciso ir buscar água a uma torneira que uma senhora pôs no quintal para a gente. é quando vou à água que eu vou brincar para a lixeira e às vezes trago uma lanterna velha um secador que trabalha mas a minha mãe não precisa dele porque tem o cabelo curto e é carapinha.

 Vou dizer ao meu amigo para ler esta carta em voz alta para saber se ele não se esqueceu de alguma coisa até porque a minha mãe está a chamar-me para pôr uma bacia a apanhar a água que está a cair em cima da cama. está a chover muito e é sempre assim é quando a mãe canta «sodade di nha crecheu» Agora lembrei-me: tu que és o Pai Natal, o mensageiro de Deus e portanto sabes onde está tudo porque vais dar as prendas a toda a gente quando passares por cima da minha casa com o teu carro de madeira puxado por aqueles animais que têm cornos e parecem árvores, no dia de Natal faz-me só um sinal um sinal só para mim, só para mim. e não te esqueças:

lembra-te da minha mãe.

 

 

BOAS FESTAS


publicado por seixalfc às 01:12
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